sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Vamos começar de novo!




O grande ponteiro das horas apontando os anos em minhas costas. Como faca rendendo e ordenando.
-Vá com seus versos bordar novas histórias
Eu ali quieto, na cama, condensando o dia. Mas o tambor do peito ecoando como que chamando meu corpo para batalha de encarar a folha branca. Logo imagino uma pétala branca. Protegida por um espinho que desafia o passante. Logo ergo minha caneta/espada. Um Dom Quixote ou São Jorge, se bem que os dois aproximam-se.
É a poesia que anuncia ainda na noite um novo dia em rotina. Mas como com a poesia tudo se transforma: Volatiza-se a comunicação. Poesia/trabalho espiritual.
A poesia é que confronta e molda a realidade
Talha a cinzel a vontade de cada um de chegar ao céu.
Todos conhecem a vida em poesia, mas esquecem facilmente, porém também facilmente lembram. A espontaneidade que este texto pretende me desalienar da física torna-me natural de mim a nós. Sou como as maçãs que, irrefletidamente, nascem numa macieira. Simplesmente nascem na árvore da qual família são. Sou também o botão da flor que desabrocha suavemente ao sabor do tempo, do seu tempo ante-florir. Ainda que acompanhado de espinhos, que espinham as mãos calejadas do sutil labor de poetizar.
Assim convido-o a entrar em minhas, que faço nossas, mais floridas manhãs ensolaradas. Manhãs da infância sonhada.
O sono que não vem, chama o sonho que vem
Toma-me pela mão em razão e em emoção. Não é um convite. É um seqüestro eqüestre. Estou num cavalo, tomado emprestado da carruagem solar. A poesia minha epopéia sem platéia. Encampa meus sentimentos do pampa a corda bamba. Poesia eis-me aqui. Ela dita ao meu espírito, e é por ele que repasso em toscas, mas honestas anotações.
É uma música ouvida lá das entranhas estrelas. O que sou de inquieto cessa. Nada evoca-me mais que um canto, que por enquanto, está no infinito ecrã de meu divã. Rima meu La La ri La La com já, pois agora mesmo visto tais notas perceptivas com as roupas das letras do alfabeto. Conservo nessa captação a presença onírica da eterna e heróica presença de cada vida deste planeta. Uma aventura que dura pra sempre. Uma obra em que nada sobra tudo se aproveita.
Esta minha mão, que em dedos, agora digita a vida que pulsa e expulsa em cada teclada almas que não ficam caladas e que na calada da noite vem-me como em açoite. Este finito momento preserva-se em sinais que divulgam cada vez mais que a vida não começa nem termina. Em rebento enfrento face a face o tempo. O futuro transformando o presente em passado e nesse papel noel se encontrando. Amortecendo este momento vem o amor tecendo cada movimento. Em cada gesto descubro outro eu no mesmo eu. O peregrino que sou em todas as alcunhas desvenda as vendas que obstruem o que a luz nos mostra. Que nada interrompa eu tirando minha roupa. Inflam-se nus meus pulmões. O oxigênio inflama-se numa chama que chama a todos e a tudo que ama.
A cama lá deitada que espere
A poesia das flores aquece-se no outro lado do meu mundo, escuto. A terra bebe água, escuto. Os ventos de meus suspiros sibilam sílaba a sílaba o que sinto que sinto. As árvores, companheiras de verdes crinas, aparentemente imóveis, acompanham cada passo nosso. Todos nós somos domados pala natureza íntima de nossa onisciente vontade.
Já que chegamos até aqui neste insônico texto.
Escute em si o que há em nós todos. Na noite o volume das vozes avoluma-se. É o lúmen que vem clarear e mostrar ao homem, que cada dia é um hímen a romper. E arde e sangra ali. Tudo quando o sentido achado ampara. O ombro amigo está, esteve e sempre estará aqui.
A verdade vem com a beleza de cada sentido sentindo o sentimento captado por nosso mais sublime e profundo pensamento. A vida assim assumi seu mais alto posto de contemplação.
Um vulcão jorra sua lava e forma a ilha que somos. Errantes insulares penísulas em continentes. Almas contingentes contando gentes...
Húmus, humanos somos. Manos de mãos dadas em toda e qualquer situação. Mas somente na solidão em que estou me acho. Solo sou do sol. Iluminado pelo íntimo. A sola e o assoalho em que meus pés tocam me levam pelas mãos aos céus de cada um que todos juntos somos.
Poesia raio divino. Clarão de mim em mim. O céu de minha boca é tocado por todas as línguas.
Não quero estar enchendo lingüiças. Mas estamos no bosque dos por quês. Por que te amo. Nus amamos! Estou!
Agora que estou sem seqüelas. Vejo feliz a cicatriz, e penso que foi por um triz. Carrego todos os sonhos de frutos e flores no grão da semente. Promessa de vida... Ah! Vida, dura caminhada. E o teclado ligeiramente orvalhado de mim reflete. E meus dois olhos (agora) olham pra mim e me dizem bem assim: vamos começar de novo!

Um comentário:

Aline Carla Rodrigues disse...

Lindo! Quanta inspiração! Parece-me Olavo Bilac comparando ao ourives as palavras que saem de sua boca.Que a sua espada caneta, traga-lhe todos os dias vontade de surgir das cinzas escritas tais que arrebatem os nossos corações. Imenso abraço.